A Couraça

15 de Junho, 2009

Em 2006 ao ir para uma sessão de psicanálise, chegando lá, comi alguns frutos de cajá que se encontravam no chão caídos de uma grande cajazeira do jardim. Ao olhar seu tronco havia muitas raízes que percorriam de baixo para cima o tronco, este por sua vez tinha veios grossos na casca extremamente dura.

Ao olhar antes para o tronco da cajazeira, quando ia lá outras vezes, julgava que aquelas raízes que subiam na planta eram próprias e que o cajá em forma de semente se assemelhava àquela estrutura. Mas ontem ao chegar bem perto, comecei a alisar a árvore, o contato de minha mão com o tronco e com aquelas raízes me fizeram perceber que as raízes que eu tocava ao longo do tronco não faziam parte de sua gênese; qual foi minha surpresa ao perceber se tratar de várias raízes de outra planta que  parasitavam a cajazeira; tentei em vão arrancá-las do tronco mas havia varias raízes grossas como que incrustradas na árvore; eram veios profundos, confundidos da relação entre as duas plantas. Imediatamente me veio a idéia da couraça que Reich tanto falava e de como é difícil se libertar dela. Não havia como tirar a comensal sem causar algum dano a planta que a alimentava, no caso a cajazeira. Tudo isso me remeteu a minha vida, as dores que sentia na época, no plexo solar, no chakra cardíaco e em outras parte do corpo que refletiam essa resistência do meu corpo, da minha couraça, do meu tronco (fazendo uma analogia com a árvore) em retirar determinadas situações ou pessoas de minha vida que estavam enraizadas a mim e me faziam sentir como parte delas. Imagino que se tentássemos tirar tais raízes daquela planta, com certeza sua inteligência captaria aquilo como injúria e com certeza sofreria com aquela aparente agressão.Assim é nosso corpo, ao tentarmos retirar a couraça, sofremos, nos debatemos e assimilamos como dor algo que deveria nos dar alívio e prazer, porque intrinsecamente a isso se associa uma grande libertação.

Neste momento chove e a chuva me traz uma sensação gostosa de transformação, de broto verde, de cheiro de relva, de capim que cresce, de renovação e acima de tudo de transformação. Não há o que temer quando nos deixamos levar pelo fluxo da vida, como uma folha ao vento pousamos com certeza em algum lugar melhor depois da tempestade.

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3 comentários

  1. Jaqueline Leite diz:

    Dra. Patrícia muito inspirado seu texto, parabéns ! maravilhoso, capta exatamente a essência de muitas transformações e dores que passamos pela vida e estão tão inraizadas que é muitas vezes uma luta interna, uma verdadeira batalha nos desfazermos delas… mas acho que se já tomamos consciência deste fato, fica bem mais fácil. Obrigada ! beijos Jaqueline Leite

  2. socorro carvalho diz:

    Isso é lindo,lindo, lindo!!!

  3. Severina do Carmo diz:

    Dra. Patrícia, Muito lindo relato, o paralelo entre as raízes comensais e a couraça feita de tantos elementos estranhos. Felizmente a consciência profunda do Ser um dia tem força para a libertação. Nada fácil, muitas lutas no cotidiano, até aprendermos a nos observar verdadeiramente. Obrigada! que tenha ótimo fim de semana.

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